A primeira mulher a se formar em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFF

No dia 28 de fevereiro de 2019, tive o privilégio de entrevistar Telma Portugal, a primeira mulher a se formar em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFF (Universidade Federal Fluminense), em 1962. Em um café, conversamos sobre sua trajetória, enquanto ela mostrava suas fotografias da época. A biografia abaixo é o resultado desse encontro, mediado por uma de suas filhas, Isabel Petri.

 

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(Formatura da turma de Engenharia Civil, 1962. Foto: Arquivo Pessoal)

 

Telma Portugal nasceu no dia 02 de Julho de 1937, na cidade de Santo Antônio de Pádua, no norte do Rio de Janeiro. Mudou-se para Niterói aos 13 anos de idade com a família. Por incentivo de sua mãe, Clotilde Perissée Portugal, fez o Curso Normal no Instituto de Surdos, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, para ser professora. Sua mãe já trabalhava como professora no Rio de Janeiro e em Niterói e queria que a filha tivesse um encaminhamento profissional desde cedo.

No segundo ano do curso, Telma percebeu que aquela não era sua área, mas decidiu concluir a formação. Conciliou o Curso Normal pela manhã e o Científico à noite, necessário, na época, para se entrar em uma universidade. Telma fez um teste vocacional que a levou para a área de exatas. Ela conta que o incentivo de sua mãe foi muito importante: “ela dizia: você quer? vai estudar, eu te dou apoio”.

Após forma-se normalista, deu aulas para crianças enquanto estudava para o vestibular. Na primeira tentativa, não passou. Na segunda, passou em primeiro lugar para a Escola Fluminense de Engenharia (hoje Faculdade de Engenharia) da UFF.

Aconteceu isso do primeiro lugar… A Faculdade de Engenharia da UFF, aliás, nem existia, chamava-se Escola Fluminense de Engenharia. O vestibular oferecia muitas vagas, mas não passou a quantidade de candidatos que eles queriam. E eu tinha perdido o primeiro exame. Estava bem preparada, mas deu um branco, ninguém é livre disso.

Como o total de vagas disponíveis para o curso não foi preenchido naquele primeiro vestibular, a Escola de Engenharia ofereceu aos candidatos um segundo exame, no mesmo ano. Foi nesse vestibular que tirei o primeiro lugar, isso no começo de 1958. O primeiro lugar no segundo exame foi meu. O curso pré-vestibular que frequentei fez propaganda no jornal da cidade com meu nome, pois o fato foi muito surpreendente para a época.”

Como única aluna do curso de Engenharia Civil, durante toda a sua graduação, Telma enfrentou preconceito nos primeiros anos. Alguns colegas diziam: “Engenharia não é profissão de mulher”. Além disso, teve que ouvir no bairro que ela havia entrado na universidade para “procurar homem”. Telma conta que respondeu “tem jeito mais fácil, né, do que ter que passar no vestibular!”. E assim, ela estava abrindo o caminho para que outras mulheres pudessem estudar o que desejassem e atuar na profissão escolhida.

 

Telma conta que havia muito machismo velado, muito ódio, inclusive em forma de disputa. Alguns de seus colegas sempre conferiam as notas das turma para ver se ela estava entre os melhores.

Ao longo da graduação, no entanto, as hostilidades e conversinhas pararam de ocorrer e Telma foi se tornando a “mascote” da turma, participando de inúmeros eventos e sendo representante da Escola de Engenharia em diversos congressos. Durante três anos, foi monitora da disciplina Cálculo 1.

(Jogos Estudantis, 1960. Foto: Arquivo Pessoal)

 

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(Telma em frente ao prédio do curso de Engenharia Civil, 1961. Foto: Arquivo Pessoal)

 

A formatura do curso de Engenharia Civil aconteceu em 1962, quando houve a junção dos cursos e escolas que, antes isolados, passaram a compor a Universidade Federal Fluminense.
Telma foi escolhida para ser a oradora da turma, e lembra com emoção que o vestido usado na formatura foi feito por sua mãe.

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(Oradora na turma na formatura, 1962. Foto: Arquivo Pessoal)
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(Formatura da turma de Engenharia Civil da Escola de Engenharia da UFF, 1962. Telma foi a única mulher da turma. Foto: Arquivo Pessoal)

No último ano do curso,1961, Telma recebeu a orientação de um professor para se candidatar a um emprego na SURSAN – Superintendência de Urbanização e Saneamento. O órgão era novo e estavam recrutando profissionais recém formados. A jovem engenheira começou a trabalhar no dia 06 de Janeiro de 1962, no Departamento de Águas. Como a capital federal havia sido transferida para Brasília, o órgão passou por uma mudança estrutural. Telma era uma das poucas mulheres no setor de águas. Ela recorda que havia poucas engenheiras, e que a maioria trabalhava na parte administrativa.
Telma seguiu se especializando e estudando. Lia livros de sua área em francês, espanhol e italiano.
Sempre atuando na área de engenharia civil, especificamente no setor de projeto e planejamento, trabalhou em empresas em Brasília e São Paulo e depois retornou ao Rio de Janeiro. Nesta cidade, foi engenheira da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) por 33 anos, e se aposentou em 1994.

Atualmente vive em Niterói, RJ. Tem 3 filhas, duas netas e um neto. Seu recado para outras mulheres é que sigam em frente na área profissional escolhida. Lembra também que a independência financeira de uma mulher é fundamental, principalmente fazendo o que se gosta.

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(Entrevista com Telma Portugal, em fevereiro de 2019. Foto: As Mina na História)

A coisa mais importante na minha vida profissional, na minha vida, é a minha mãe, que me deu sempre muita força e que me apoiava em tudo. Ela me incentivou e  curtia o que eu fazia, o que eu queria estudar, gostava dos meus projetos, participava das minhas atividades. Ela me dizia para estudar sempre, para me tornar independente.

Agradeço a Isabel e Bia Petri, por terem comentado sobre a história de sua mãe na publicação sobre Nise da Silveira, que foi a única mulher na turma de medicina. E principalmente por terem aceitado compartilhar a história e as fotografias. Também agradeço a Telma Portugal pela entrevista cedida e por nosso encontro presencial.

 

Como citar esse texto? 
VARANIS, Bia. A primeira mulher a se formar em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFF. As Mina na História. 2020. Disponível em:
https://asminanahistoria.com/2020/03/02/a-primeira-mulher-a-se-formar-em-engenharia-civil-pela-escola-de-engenharia-da-uff/

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