Quem foi Ana Cristina Cesar – a escritora ícone da poesia marginal brasileira

Ana Cristina Cesar foi uma poeta carioca, nascida em 1952, filha do sociólogo Waldo Aranha Lenz Cesar, um dos fundadores da editora Paz e Terra. Destacou-se na década de setenta por sua produção poética confessional. Licenciou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1975 e realizou seu mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ, Cesar se envolve também com crítica e tradução literárias, sendo descoberta pela professora Clara Alvim na PUC-RIO.

Colaborou com publicações pertencentes à chamada imprensa alternativa do brasil ditatorial, como o jornal Opinião, participando também da criação do jornal Beijo. Viveu, portanto, em meio a setores intelectualizados da classe média carioca da zona sul, que em sua grande parte constituíam a movimentação contracultural daquele contexto. A escrita da autora é marcada por um tom intimista, tratando de seu cotidiano e episódios do seu dia a dia. Escrevendo em primeira pessoa, relata suas intimidades, fazendo confissões e desabafos em várias ocasiões:

Estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.

Ana Cristina Cesar em “Inéditos e dispersos” (1999).

Ana Cristina César pertencia ao grupo que ficou conhecido como “geração mimeógrafo”, marcada por uma produção que estava inserida no contexto histórico da ditadura civil-militar no Brasil. Os escritores dessa vertente se situavam à margem do mercado editorial, não sendo publicado por grandes editoras e, por essa razão, tendo que recorrer a instrumentos alternativos para divulgar seus escritos, que abordavam desde devaneios sobre a vida cotidiana até críticas contundentes às transformações que ocorriam na sociedade.

Ainda que se utilizasse de uma linguagem coloquial e o humor estivesse presente em diversas poesias, a produção desses poetas também traduzia os anseios e angústias de uma geração que vivenciou a implantação do Ato Institucional Número Cinco, AI-5, e, por consequência, não pôde mais relatar suas histórias devido ao intenso rigor da censura.  Frequentemente faziam críticas à noção canônica de poesia estabelecida e à exigência de um leitor bem preparado para o entendimento dos textos

Ana Cristina César, contudo, se diferencia em alguns aspectos desse grupo, possuindo um estilo próprio de escrita, fortemente influenciado pela leitura de escritores consagrados e de sua experiência com a crítica e a tradução de obras. Um exemplo da versatilidade e pluralidade de “eus” da escritora é a quantidade de diferentes assinaturas que ela utiliza para encerrar os seus poemas: Ana C., Ana Cristina Cesar, Ana Cristina:

Tantos poemas que perdi – tantos que ouvi, de
graça, pelo telefone — taí, eu fiz tudo pra você
gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista arranhando na garganta,
malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez
maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de
mesuras (era uma estratégia), fiz comércio, avara,
embora um pouco burra, porque inteligente me
punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que
desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra cena à luz de spots, talvez
apenas teu carinho, mas tantas, tantas fiz…

Ana Cristina Cesar em “Poética” (2013).

Ana Cristina Cesar foi uma importante personagem da história literária brasileira, contribuindo ativamente para as discussões políticas e intelectuais de sua época, somando forças à resistência cultural aos anos de chumbo.

Texto escrito e enviado por Bárbara Pinheiro Baptista, historiadora e mestranda pelo Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Como citar esse texto? 

BAPTISTA, Barbára Pinheiro. Quem foi Ana Cristina Cesar – a escritora ícone da poesia marginal brasileira. As Mina na História. 2020. Disponível em: https://asminanahistoria.wordpress.com/2020/01/23/quem-foi-ana-cristina-cesar-a-escritora-icone-da-poesia-marginal-brasileira/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s