As mulheres históricas que a Mangueira resgatou

 

Ontem (04/03) a Estação Primeira de Mangueira desfilou na Sapucaí no segundo dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro. O Samba enredo intitulado “História pra Ninar Gente Grande” foi uma grande aula de história decolonial. Ou seja, a história a partir de uma perspectiva latino-americana, indígena e preta. A história do Brasil e todos seus protagonistas, sem excluir as mulheres negras, sem excluir as lutas e resistências, sem a borracha do olhar europeu.

“Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento/
Tem sangue retinto pisado / Atrás do herói emoldurado /
Mulheres, tamoios, mulatos/ Eu quero um país que não está no retrato”

Logo no começo do enredo, a escola homenageia Leci Brandão: “Ô, abre alas pros teus heróis de barracões / Dos Brasis que se faz um país de Lecis“. Leci Brandão foi a primeira artista lésbica da Música Popular Brasileira a ousar falar com naturalidade a respeito da homossexualidade. Nascida no Rio de Janeiro, no dia 12 de setembro de 1944, começou sua carreira no início da década de 1970, tornando-se a primeira mulher a participar da ala de compositores da Mangueira. No desfile, ela representou Luiza Mahin, nascida no séc. XIX, ex-escravizada africana, radicada no Brasil. Foi uma das principais articuladoras da Revolução dos Malês (1835) e da Sabinada (1837) na Bahia. Foi mãe do abolicionista Luiz Gama, que deixou alguns registros sobre ela.

 

“Lampião da esquina”, nº 6, de novembro de 1978.

 

Leci Brandão como Luiza Mahin. Mangueira, 2019. Rodrigo Gorosito/G1

 

“Brasil, o teu nome é Dandara”

Dandara dos Palmares, representada no desfile pela cantora Alcione, foi uma das lideranças que lutou com armas contra o sistema escravocrata do século XVII no Brasil. Esperança Garcia, considerada a primeira mulher advogada do Piauí, também foi relembrada pela Mangueira. Esperança foi escravizada no século XVIII e escreveu uma carta ao Presidente da Província de São José do Piauí, denunciando os maus-tratos físicos de que era vítima, ela e seu filho, por parte do feitor da Fazenda Algodões. O dia 6 de setembro, data da petição, foi estabelecido como o “Dia Estadual da Consciência Negra” no Piauí.

Esperança Garcia ilustração por Valentina Fraiz

Na ala sobre a ditadura, a jornalista Hildegard Angel representou a memória de sua mãe, a estilista Zuzu Angel e seu Irmão, Stuart Angel Jones, militante político desaparecido na ditadura militar. Hildegard usou o colar de luto feito por Zuzu Angel (1921-1976), que na época usou a moda para denunciar as execuções de jovens pela ditadura.

Zuzu Angel também acabou sendo executada, morrendo misteriosamente em um “acidente” no túnel que hoje leva seu nome, na zona sul do Rio de Janeiro.

Zuzu Angel

A grande homenagem final foi para a ex-vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, executada há quase um ano (14 de março de 2018) – e ainda sem resposta do Governo Brasileiro: quem mandou matar Marielle?

Marielle Franco (1979-2018)

Socióloga, política e feminista, Marielle denunciava constantemente abusos de autoridade por parte de policiais contra moradores de comunidades carentes. Ela nasceu e cresceu na favela do Complexo da Maré. Mulher negra, bissexual, militava nas causas LGBTS, no movimento feminista e no movimento negro. Sua esposa Mônica Beníci, esteve presente no desfile. Ao lado da bandeira de Marielle também estava a bandeira de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), grande escritora negra, conhecida por seu livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960.

Carolina Maria de Jesus

Créditos da imagem do texto: Rodrigo Gorosito/G1

Leia a carta de Esperança Garcia: https://bit.ly/2TkSF2q

Leia o samba-enredo da Mangueira: https://bit.ly/2C08Zen

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