20 mulheres da América Latina que você precisa conhecer

 

Se aqui no Brasil nós conhecemos pouco sobre a América Latina, imagina sobre as mulheres que foram protagonistas dessa história.

As primeiras biografias sobre mulheres latinoamericanas foram feitas no final do século XIX, começo do XX, quando o tema da independência ganhou importância. Maria Ligia Prado, no livro “América Latina no Século XIX: Tramas, telas e textos”, fala sobre os livros “mulheres célebres”, “mulheres patrióticas”, “mulheres ilustres”, que colocavam as mulheres em uma posição completamente patriótica, religiosa, sentimental, caridosa e sempre como um modelo de esposa e de mãe. Em nenhum momento foi levado em conta seu protagonismo nas lutas pela independência da América Latina, e muito menos as quebras de padrões religiosos e morais que fizeram para poder participar dos movimentos. Um bom exemplo é de Maria Quitéria, que se vestiu com roupas masculinas para participar do exército nas lutas pela independência do Brasil, e foi somente descrita por “sentir seu coração arder pela pátria”.

Já dizia Michelle Perrot (historiadora francesa autora de diversos livros sobre a história das mulheres), “O ‘ofício do historiador’ é um ofício de homens que escrevem a história no masculino”. E por isso, até hoje, muitas biografias reproduzem a lógica de exaltação da beleza, virtudes, heroísmo, sentimento materno, caridade, e outros códigos de comportamento “feminino”.

Em 2015, estudantes de Cinema da UNILA fizeram o “Manuelas”₄, curta documental sobre o apagamento do papel de mulheres na América Latina, tendo como ponto de partida Manuela Sáenz, que ocupou um papel revolucionário e acabou sendo lembrada apenas como “amante de Simón Bolívar”. O filme aproxima Manuela do contexto da mulher na sociedade contemporânea, onde ainda permanecem extremamente apagadas e descriminadas.

A historiografia de mulheres latinoamericanas continua não contemplando grande parte das diferentes realidades vividas pelas mulheres no território. E esse silenciamento e apagamento é sentido no dia a dia: seja em elementos físicos da cidade, como nome de ruas, praças, estátuas e avenidas, que levam em sua maioria nomes de homens políticos e generais, até as 5 horas em que passamos assistindo uma aula onde nenhuma mulher é citada.

Esse silêncio é mais uma violência de dominação branca masculina europeizada. O epistemicídio, como na definição de Renato Nogueira, professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), se constitui pela “colonização, o assassinato e a recusa da produção de conhecimento de determinados povos, no caso brasileiro, o negro e indígena”, e isso é um ato simbólico do feminicídio que mata ao menos 12 mulheres latino-americanas e caribenhas por dia², sendo o Brasil o primeiro no ranking de assassinatos de mulheres transgênero e travestis³.

Esta lista, com 20 mulheres latinoamericanas, é uma tentativa de fazer circular importantes biografias:

1 – Comandanta Ramona – México

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Ramona nasceu em Chiapas, México, em 1959. Foi uma das lideranças do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), de Chiapas, no México. Ramona ajudou a criar a Lei Revolucionária das Mulheres, parte da Lei Revolucionária do EZLN.

Indígena tzotzuk, juntou-se ao grupo antes do levante armado de janeiro de 1994. Referência na luta pelos direitos das mulheres indígenas, foi a primeira integrante do comando zapatista a deixar a região, em 1996, para participar de uma conferência na Cidade do México. Faleceu em janeiro de 2006, após dez anos de luta contra um câncer nos rins.

2- Christina Hayworth – Porto Rico

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Christina nasceu na cidade de Humacao, em Porto Rico. Ela viveu e sobreviveu os eventos trágicos de Stonewall, em 1969, quando a polícia interrompeu a discoteca Stonewall, desencadeando vários dias de protesto. Esse evento marcou o começo do movimento Gay e Trans nos Estados Unidos. Participou de vivências importantes que constroem a historiografia das pessoas trans, lésbicas e gays.

Cristina foi fundadora da primeira parada LGBT de Porto Rico, chamada “Herencia de Orgullo”, e hoje nomeada de Pride Fest. Na mesma década de 90, começou uma revista chamada “El Coquí”, que durou apenas um ano. Viveu durante anos em Nova Iorque, com as companheiras Marsha P Johnson e Sylvia Riveira, ambas fundadoras da STARS (Street Transvestite Action Revolutionaries).  Atuou durante anos como jornalista independente, sempre presente nos programas de televisão de Porto Rico. Esteve presente também no meio político, pressionando as autoridades contra todo o tipo de discriminação LGBT e pensando políticas públicas para a diversidade.

As últimas notícias que temos dela são de 2013, quando foi encontrada morando em um prédio abandonado, sem nenhuma estrutura. Não se sabe como está hoje, e esse é um bom exemplo pra se pensar a importância que a mídia e a sociedade dá para as pessoas trans.

3- Célia Sánchez – Cuba

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Célia Sánchez Manduley nasceu em Cuba, em 1920. Quando jovem, ingressou no Partido do Povo Cubano, por influência do pai que fazia oposição ao governo Fulgêncio Batista. Todos conhecem a história de Fidel Castro, mas poucos sabem que ela esteve no centro da Revolução Cubana. Célia usou o seu poder de comunicação para organizar um movimento de guerrilha libertadora. O movimento criou corpo e em 1957, ela entrou no Exército Rebelde, tornando-se uma brava guerrilheira e fiel aliada de Fidel Castro.
Sendo amiga íntima de Fidel, passou a colaborar com ele e era a única de ousava criticá-lo. Foi a primeira guerrilheira da Sierra Maestra, e isso, abriu oportunidades para outras mulheres seguir seu exemplo. Tendo poder e sabedoria para comandar, esteve à frente no ataque ao Quartel Uvero, saindo-se vitoriosa ao exército de Batista. Dizem que as grandes decisões políticas partiam dela. 
Além do comando, Célia controlava também as finanças do grupo. Tinha o hábito de anotar, guardar, escrever, tudo o que acontecia sob a justificativa de “preservar a história”. Fez parte do Comitê Central do Partido Comunista Cubano. Amava tanto as flores que, Fidel a chamava de ‘flor autóctone” (nativa).
Morreu de câncer em 1980, e hoje a casa onde nasceu é um museu.

4 – Patria Mirabal (1924-1960), Minerva Mirabal (1926-1960) e Maria Teresa Mirabal (1935-1960) – República Dominicana

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As irmãs Mirabal foram três irmãs dominicanas que se opuseram à ditadura de Rafael Trujillo, e estiveram envolvidas em atividades clandestinas contra seu regime. As irmãs foram assassinadas em 1960, transformando as mulheres em símbolos da resistência popular.

No dia 25 de Novembro de 1960, voltavam de uma visita aos seus esposos na cadeia e foram pegas de surpresa, levadas numa emboscada, torturadas e assassinadas.

A data de 25 de Novembro entrou foi declarada pelas Nações Unidas em novembro de 1999 como Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher.

5 –  Soledad Barrett Viedma – Paraguai.

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Soledad Barrett Viedma nasceu em 06 de janeiro de 1945, no Paraguai. Seu pai era Alejandro Rafael Barrett Lopez, o único filho do escritor e líder anarquista espanhol Rafael Barrett.

Quando Soledad tinha apenas 3 meses de idade, sua família teve que fugir para a Argentina, onde passaram cinco anos exilados. Na adolescência, Soledad começou a militar no grupo de “pardais”, ligado à Frente da Juventude-Student de Assunção e FULNA. Forçados a emigrar mais uma vez, pela repressão ditatorial, foram para o Uruguai. Em 1 de 1962 de julho, com 17 anos de idade, Soledad foi sequestrado por membros de um comando uruguaio nazista. Eles queriam que ela gritasse: “Viva Hitler!  Fora Fidel!”, mas Soledad se recusou. Com uma faca, desenharam em suas coxas uma suástica (símbolo nazista) e a deixaram atrás do Jardim Zoológico de Villa Dolores.

Militando ativamente em grupos revolucionários, foi para Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Lá conheceu José Maria Ferreira de Araújo, com quem se casou e teve uma filha, Naim. De cuba, José Maria retornou ao Brasil, em julho de 1970 para ajudar a fortalecer a luta armada. Em setembro de 1970, foi capturado e morto pelos militares. Soledad tinha 25 anos.

Ao voltar para o Brasil e saber da morte de seu marido, decidiu juntar-se ativamente as guerrilhas brasileiras em luta para derrubar a ditadura.

O VPR a enviou para Recife, juntamente com outros companheiros. Lá, ela se reuniu com Anselmo, um ex-amigo militante do marido, que havia conhecido em Cuba. O “Cabo Anselmo” foi um militar que liderou a “revolta dos marinheiros” em 1964, contra o governo de João Goulart, e tornou-se um herói para os guerrilheiros. Mas a ditadura o havia capturado como espião de casal e tinha a missão de informar sobre os seus pares.

Poucos dias antes de completar 28 anos, no dia 08 de janeiro de 1973, Soledad estava com Pauline Reichstul no bairro de Boa Viagem (Recife/Pernambuco), vendendo roupas na butique em que trabalhava, quando foram sequestradas por agentes do DOPS. Entre eles estava o Cabo Anselmo, seu amante e de quem estava grávida. Neste dia também foram sequestrados Eudaldo Gomez da Silva, Jarbas Pereira Márquez, José Manoel da Silva e Luiz Evaldo Ferreira.

Os corpos foram encontrados em uma fazenda em São Bento, município de Abre e Lima, perto de Recife. A procuradora Mércia Albuquerque relata: “Em um tambor foi encontrada Soledad Barret Viedma, nua e com sangue nas coxas e pernas, no fundo do poço, onde também estava um feto.” No entanto, seu corpo nunca foi entregue e Soledad ainda é considerada uma pessoa desaparecida.

 

6 – Leila Gonzalez – Brasil

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Lélia Gonzalez de Almeida nasceu em Belo Horizonte, no dia 1 de fevereiro de 1935. Filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena, tinha mais dezoito irmãos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, em 1942, morando na favela do Pinto, bairro do Leblon. Um tempo depois, mudaram-se para uma casa em Ricardo de Albuquerque. Léila estudou no Colégio Estadual Orsina da Fonseca e no Colégio Pedro II.

Graduou-se em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política.

Foi assistente de Tarcísio Padilha, no curso de Filosofia, n a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e, mais tarde, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.

Como professora, ela lecionou em muitas escolas de nível médio, em faculdades e universidades. Foi professora no Instituto de Educação, no Colégio de Aplicação (UERJ), na rede estadual de ensino.

Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, elegendo-se primeira suplente.

Em 1982, Lélia escreveu “Lugar de negro”, junto com Carlos Hasenbalg.

Faleceu no dia 10 de julho de 1994, no Rio de Janeiro, aos 59 anos de idade.

É considerada a primeira intelectual negra no País, na Enciclopédia Encarta Africana e em “Mulheres Negras do Brasil”.

7 – Carmen Soler – Paraguai

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Carmen Soler nasceu no dia 4 de agosto de 1924, Assunção, Paraguai. Foi uma educadora paraguaia, poeta e membro do Partido Comunista Paraguai. Foi presa e exilada várias vezes por lutar contra a ditadura de Alfredo Stroessner. Escreveu os livros: Poesías reunidas, La alondra herida, En la tempestad: poesía.

Faleceu em 1985,  Buenos Aires, Argentina.

8-Dorcelina Folador – Brasil

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Dorcelina de Oliveira Folador nasceu no dia 27 de julho de 1963, em Guaporema, no Paraná. Aos onze de idade, mudou-se para Mundo Novo, com a família. Cidade que fica no extremo sul do MS, perto da fronteira com o Paraná e o Paraguai (470 km ao sul de Campo Grande).

Em 1980, integrou a Pastoral da Juventude. Em 1987, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Poeta, professora e artista plástica, foi candidata a vereadora em 1988. Um ano depois, começou a contribuir no MST – Movimento Sem Terra, no qual chegou a assumir a direção estadual. Atuou também como repórter popular do Jornal dos Sem-Terra. Em 1996, Dorcelina foi eleita prefeita e assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 1997. Até outubro de 1999, Dorcelina conseguiu mudar muitas coisas na administração municipal. Entre elas, a realização de concurso público para alguns cargos e a implantação do orçamento participativo.

Dorcelina denunciou o que chamava de “máfia” que comandava a cidade, que, segundo ela, tinha envolvimento com o narcotráfico, contrabando de armas e até com o tráfico de crianças para o exterior. Após as denúncias, foi assassinada com seis tiros no dia 30 de outubro de 1999, no fim da noite de um sábado, quando estava sentada na varanda da casa onde morava com o marido e as duas filhas.

9-Elvia Carrillo Puerto – México

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Elvia nasceu na Cidade do México, no 6 de dezembro de 1878. Foi uma líder feminista de sua época, conhecida como Monja Roja del Mayab.

Fundou em 1012, a primeira organização feminina de campesinas no México.

Participou do Partido Socialista del Sureste e foi eleita deputada em 1923, sendo uma das três primeiras mulheres a formar parte do legislativo no México, junto com Beatriz Peniche Barrera e Raquel Dzib Cicero, em uma época em que o direito ao voto ainda era inexiste. Elvia lutou incansavelmente pelo direito das mulheres ao voto, o que foi obtido em 1953. Elvia faleceu no dia 15 de abril de 1968, aos 89 anos. É reconhecida hoje no México por sua “defesa, proteção, exercício e investigação dos direitos humanos das mulheres e da igualdade de gênero no país”.

10 – Violeta Parra – Chile 

Pioneira do folk latino-americano, poeta, antropóloga-sem-diploma, compositora, cantora, artista plástica e mais importante folclorista do Chile, nascida em 4 de outubro de 1917.

Violeta Parra nasceu na província de Ñuble, na comuna de San Carlos, no Chile. Filha de campesinos pobres, cresceu com oito irmãos em uma realidade dolorosa, em meio ao desemprego e à miséria características de sua região naquele início de século.

Aos seis anos de idade, Violeta Parra começou os seus estudos na Escuela Normal de Santiago. Na mesma época, começou a estudar violão e a cantar junto de seus irmãos Hilda, Eduardo e Roberto.

Depois de muitas dificuldades financeiras, e vivendo de favores em casa de parentes, formou-se professora. Porém, não se encontrou registro de que tenha exercido a profissão no ambiente escolar/acadêmico. Nesta época, compôs aproximadamente 130 canções e poemas originais e compilou, organizou e difundiu cerca de três mil temas.

Em 1949, ela começou a pôr em prática os seus projetos para resgatar a tradição do povo campesino chileno. Também em 1949, começou a cantar com sua irmã Hilda, gravando inclusive discos pela RCA Victor. Em 1952, era diretora, vendedora de ingressos e roteirista da companhia de circo popular Estampas de América. Os musicos campesinos lhe ensinaram a tocar diversos instrumentos típicos do folclore chileno, entre eles, o guitarrón, um instrumento de 25 cordas que nem antes, nem depois de Violeta foi utilizado por outro artista com alcance de massas.

Em 1953, gravou suas primeiras canções em um disco da EMI-Odeon. Em 1954, Violeta apresentou um programa na Radio Chilena. Nesse mesmo ano, ela iniciou um projeto de pesquisa folclórica que a fez percorrer todo o país entrevistando cantores populares, dançarinos, sábios e contadores de história. Em 1957, foi convidada pela Universidade de Concepción, no Sul do Chile, para continuar o seu trabalho de pesquisa, alojando-se na sede do Instituto de Arte. Criou, nesta mesma universidade, o icônico Museo Nacional del Arte Folklórico Chileno, inaugurado em janeiro de 1958. Entre 18 de abril e 11 de maio de 1964, foi realizada no Museu do Louvre uma exposição de suas pinturas, óleos, arpilleras e esculturas em arame, tendo sido ela a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual nesse espaço.

Suicidou-se no dia 5 de fevereiro de 1967.

11 – Maria Victoria Santa Cruz – Peru

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Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra nasceu no Peru, no dia 27 de outubro de 1922. Foi poeta, coreógrafa, folclorista e estilista.

Iniciou a carreira em 1958, integrando o grupo Cumanana, ao lado do irmão mais novo, o poeta Nicomedes Santa Cruz Gamarra. Com uma bolsa do governo francês, foi estudar em Paris em 1961. Na capital francesa, criou os figurinos para montagens de El retablo de don Cristóbal, de Federico García Lorca, e La rosa de papel, de Ramón María del Valle-Inclán.

De volta à terra natal, fundou a companhia Teatro y Danzas Negras del Perú. É considera a difusora da cultura negra no Peru. É conhecida por interpretar o poema “Me gritaron negra”.

Excursionou pelos Estados Unidos em 1969, e depois foi nomeada diretora do Centro de Arte Folclórica de Lima. Dirigiu o Instituto Nacional de Cultura peruano entre 1973 e 1982. Foi professora da Universidade Carnegie Mellon.

Faleceu aos 91 anos, em Lima, no dia 30 de agosto de 2014.

12 – Domitila Chúngara – Bolivia

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Domitila (1937 – 2012) foi uma líder trabalhista boliviana e feminista.  Realizou greves contra a exploração dos trabalhos mineiros e derrubou uma ditadura na Bolívia. Em 1975, participou da Tribuna Internacional do Ano da Mulher promovida pelas Nações Unidas no México. De lá, nasceu o livro “Se me deixem falar, testemunho de uma mineira boliviana” organizado pela historiadora Moema Viezzer.

13 – Patricia Galvão, a Pagu – Brasil

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“Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre.”

Pagu nasceu no dia 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista, mas cresceu na capital de São Paulo. Foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante política brasileira. Escandalizava os vizinhos com suas saias curtas e seu batom vermelho, em um tempo em que as mulheres deveriam ser reprimidas. Aos 15 anos, colabora para o Jornal do Brás. Aos 18, entrou para o movimento modernista.

Usou pseudônimos em toda a sua vida: na infância era chamada de Zaza, assinou seus primeiros poemas como Patsi e o seu romance Parque Industrial (1933, que denunciava as condições socioeconômicas em que viviam os proletários e desmistificar a posição doméstica das mulheres.) com o nome de Mara Lobo e Ariel em seus artigos no jornal A Noite. 

Ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia de Getúlio Vargas. Era a primeira de uma série de 23 prisões, ao longo da vida. Logo depois de ser solta, em 1933, partiu para uma viagem pelo mundo, deixando no Brasil o marido e o filho. Em 1935, foi presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, sendo repatriada para o Brasil. Ao retomar sua atividade jornalística, foi novamente presa e torturada pelas forças da Ditadura, ficando na cadeia por cinco anos.

Faleceu no Brasil, no dia 12 de dezembro de 1962, em decorrência de câncer.

 

14- Alfonsina Storni – Argentina

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Nasceu em Sala Capriasca, na Suíça, no dia 29 de maio de 1892. Filha de pais argentinos, imigrou com sua família para a província de San Juan na Argentina, em 1896. Em 1901, mudou-se para Rosario, (Santa Fé), onde passou por muitas dificuldades financeiras.

Ao longo de sua vida, Alfonsina trabalhou em fábricas e participou de reivindicações sociais, se inserindo no meio anarquista. Foi atriz, atuando em diversas peças na Argentina. Colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas. Com dezenove anos, começou a carreira de professora. Na mesma época foi vice-presidente do Comitê Feminista de Santa Fé.  

Seus primeiros livros de poemas foram La inquietud del Rosal, El dulce daño e Irremediablemente. Entre outros livros, destacam-se entre suas obras Ocre), El Mundo de Siete Pozos e Mascarilla y trébol.

Em 1935, descobriu-se portadora do câncer de mama. Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto “Voy a Dormir”.

Suicidou-se andando para dentro do mar — o que foi poeticamente registrado na canção “Alfonsina y el mar”, gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938. Alfonsina tinha 46 anos.

15 – Arlen Siu – Nicarágua

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 Arlen Siu Bermúdez (1955 – 1975) Foi uma guerrilheira revolucionária. Filha de mãe nicaraguense e de um pai com descendência chinesa. Foi assassinada no combate contra a guarda nacional de Nicarágua no dia 1 de agosto de 1975. Se tornou uma das primeiras mulheres mártires da revolução sandinista. 

16 – Rigoberta Menchú – Guatemala

Rigoberta Menchú Tum nasceu em El Quiché, na Guatemala, no dia 9 de janeiro de 1959. É uma indígena guatemalteca do grupo Quiché-Maia.
Foi contemplada com o Nobel da Paz de 1992, pela sua campanha pelos direitos humanos, especialmente a favor dos povos indígenas, sendo Embaixadora da Boa-Vontade da UNESCO e vencedora do Prêmio Príncipe das Astúrias de Cooperação Internacional. Filha de Vicente Menchú Pérez, ativista em defesa das terras e dos direitos indígenas e de Juana Tum Kótoja, parteira indígena.


Ganhou o Nobel em reconhecimento aos seus trabalhos por justiça social e étnico-cultural baseado no respeito aos direitos dos povos indígenas.
Na leitura do prêmio, reivindicou os direitos históricos negados aos povos indígenas e denunciou a perseguição sofrida desde a “descoberta” do continente americano por Colombo. 

 Ficou muito conhecida por seu livro biográfico de 1982-83 “Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia” (Me chamo Rigoberta Menchú e assim me nasceu a consciência). O livro foi escrito por Elisabeth Burgos, a partir de entrevistas com Rigoberta. Neste livro, Rigoberta explica como iniciou a vida como trabalhadora numa plantação de café aos cinco anos de idade, em condições tão péssimas que foram a causa da morte de seus irmãos e amigos.
Quando adulta, participou em manifestações de protesto contra o regime militar por seus abusos contra os direitos humanos. A Guerra Civil da Guatemala aconteceu entre 1962 e 1996, embora a violência tenha se iniciado antes deste período. As ameaças de violência forçaram-na ao exílio no México, em 1981. Neste mesmo ano seu pai foi assassinado na embaixada espanhola na cidade da Guatemala. Em 1991, participou da elaboração da Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas pela ONU.

 

 

17 – Ana Mendieta – Cuba

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Ana Mendieta (18 Novembro 1948 – 8 Setembro 1985) foi uma artista plástica que participou do movimento feminista de artistas dos anos 70 nos Estados Unidos.

Mendieta nasceu em Havana, Cuba. Aos 12 anos ela e sua irmã Raquelin foram mandadas para os Estados Unidos por seus pais, fugindo do governo de Fidel Castro, a partir de um programa colaborativo entre o governo americano e a igreja católica, chamado de Operação Peter Pan. As duas irmãs então viveram entre diversas instituições, orfanatos e casas em Iowa durante a adolescência.

Ana estudou artes plásticas na Universidade de Iowa, onde iniciou sua pesquisa. Sua obra transita entre questões de gênero, nacionalidade, raça e exílio.

Estabeleceu seus trabalhos inicialmente nos próprios EUA e no México, e depois em Cuba. Suas obras frequentemente buscaram fugir do contexto urbano, estabelecendo relações concretas entre corpo-meio junto à natureza e/ou a espaços rituais – como no caso das ruínas pré-hispânicas mexicanas.

Ana Mendieta teve uma morte trágica e polêmica. Morreu aos 37 anos. Seu corpo caiu da janela do 34° andar de seu apartamento. Todas as evidências indicam que Ana foi assassinada por seu marido Carl Andre, que a teria empurrado da janela após uma discussão. Não ouve testemunha visual, entretanto, ouviram a artista gritando “não” diversas vezes logo antes de sua queda, além de marcas de unha recém feitas nos braços de Carl Andre. Protegido, entretanto, pela comunidade artística, ele foi absolvido e o inquérito policial decidiu concluir que Ana havia se suicidado.

Inconformadas, as artistas feministas da época mantiveram protestos por um bom tempo, chegando a invadir a abertura de uma exposição no Guggenheim onde havia uma obra de Carl André, aos gritos de “Onde está Ana Mendieta?”. Ao chegarem diante da obra dele, as mulheres jogaram sobre ela diversas imagens de Ana.

 

18 – Juana Inés de la Cruz – México

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De origem indígena e espanhola, foi uma religiosa católica, escritora, poeta e dramaturga autodidata.Quase foi levada à fogueira por sua resistência frente às regras que regiam a vida das mulheres dentro e fora da Igreja.

Nascida em Nepantla, no México, em 1651, e falecida em 1695, Juana Inês de Asbaje y Ramírez de Santillana entrou para a história como Irmã (Sóror) Juana Inês de La Cruz, uma freira da Ordem das Jerônimas. Seus poemas e suas peças de teatro sobre variados temas, eram consumidos pela corte espanhola e também pelos vice-reis que governavam a Nova Espanha, como se intitulava o México de então.  É considerada a primeira poeta de língua espanhola na América.

19 – Dolores Cacuango – Equador

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Pertencente ao povo Kayampi, nasceu em 26 de outubro de 1881, na província de Pichincha, no Equador.

Cresceu como camponesa, em meio a pobreza. Aprendeu a ler e escrever depois de adulta. Trabalhou como empregada doméstica até aos 30 anos de idade. Ao integrar o movimento indígena, logo tornou-se uma líder, lutando pela reforma agrária. Em 1944, fundou a primeira organização indígena do Equador, a Federação Equatoriana de Indígenas (FEI). Criou a primeira escola bilíngue do Equador (quíchua-espanhol). Fundou as principais associações para mulheres indígenas do país e por isso foi perseguida e reprimida. Teve sua casa e suas escolas queimadas, conseguindo escapar disfarçada. Faleceu em 1971, sozinha, doente e esquecida.

20 – María Cano – Colombia

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María de los Ángeles Cano Márquez nasceu em Medellín, Colombia, em 1887. De uma família de educadores, jornalistas, artistas, músicos e poetas, María foi autodidata e teve sua formação primária com bases no pensamento independente e livre.

No começo dos anos 20, foi a única mulher jornalista de revista Cyrano. Escrevia poesias e em 1924, fundou uma biblioteca popular gratuita. Assim começou sua aproximação com a vida dos artesão e trabalhadores da cidade, que em maio de 1925, a proclamara “Flor do Trabalho”, uma das formas da época de se exaltar as mulheres nos eventos populares.

É considerada a primeira mulher líder política na Colombia, participando ativamente da luta por direitos civis fundamentais para a população e pelo direito dos trabalhores assalariados. Organizou as convocações e agitações das greves obreras. Também foi responsável, em 1926, pela preparação do III Congresso Nacional Obrero, onde participou de forma decisiva na fundação do Partido Socialista Revolucionário (PSR).

Chegou a ser presa, em 1928, após uma greve de trabalhores ser reprimida violentamente, na cidade de Ciénaga, Magdalena.

Morreu sozinha, no dia 26 de abril de 1967.

Muitas dessas mulheres lutaram pela independência de seus corpos e de suas comunidades. Muitas lutaram pela por terra e por direitos básicos. Algumas usaram sua voz em canções e discursos, outras fizeram greve de fome. E apesar dos diferentes períodos históricos e das diferentes localidades, todas carregavam no corpo uma longa batalha contra as forças patriarcais e coloniais.

Essa lista faz parte do conteúdo do projeto As Mina na História, que desde de 2015 divulga por meio das redes sociais as histórias do protagonismo de mulheres que mudaram o mundo e mesmo assim acabaram apagadas e minimizadas da história.

Para conhecer: facebook.com/asminasnahistoria, instagram.com/asminanahistoria, asminanahistoria.wordpress.com

 

Reproduza, compartilhe e circule.

 

Por Sigrid Beatriz Varanis Ortega, estudante de História da América Latina e fundadora do projeto As Mina na História.

Notas:

¹ – Os Excluídos da História. Operários, Mulheres e Prisioneiros, de Michelle Perrot, Denise Bottmann, Editora Paz e Terra

²  BBC “País por país: el mapa que muestra las trágicas cifras de los feminicidios en América Latina”: http://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-37828573

³  Correio Brasiliense “Brasil lidera ranking mundial de assassinatos de transexuais” http://especiais.correiobraziliense.com.br/brasil-lidera-ranking-mundial-de-assassinatos-de-transexuais

₄ Manuelas – feito por Camila Ribeiro, Carolina Villalba, Cristiano Sbardelotto, Felipe Oliveira, Letícia Cristina, Luiza Monteiro, Maria Mattos e Maria Garcia. Disponível em: https://unila.edu.br/uplay/manuelas/

Referências:

http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/r/ramona-comandanta

Celia Sánchez: a flor mais autóctone da revolução

http://www.vermelho.org.br/noticia/290208-1

Sétima edição do festival El Mapa homenageia o centenário da artista chilena Violeta Parra

María de los Ángeles Cano Márquez

 

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